Procura-se Coração companheira para Coração Alberto. Será um dia de Jardim, de flores, ou quaisquer tons de cores, dia de cheiros e sabores, um dia de vida simples sem temores, um dia sem preocupação, um dia de sair de casa, dar a mão, um dia alegre, mágico, magicamente alegre, alegremente mágico. Quero um dia assim, com flores, cores e sabores, perto de quem faz história, perto de quem escreve memória, perto de quem tá perto, perto. Levo meu Coração, Alberto.
7 de dezembro de 2009
Carta do Leitor em: Declaração de amor ao Vento
Não canso de falar que você me faz feliz. Agora tá com uma mania de querer entrar, nem tenta desviar e termina uivando por se machucar na vidraça da varanda. Nem parece abatido quando deixo entrar, traz uma alegria tão grande, a adrenalina deve ajudar. Mas também, pudera, com tanta liberdade, nada mais justo que, sem medo, voar. Você sempre me envolve com seu toque de suavisar.
6 de dezembro de 2009
Anúncio de Namoro - Pédi Planta
Procura-se Planta frutífera companheira. Tenho raizes que suportam ventos de até 190km/h, galhos, cor púrpura, que abraçam, folhas que acariciam, pés no chão e dois ninhos de Sabiás adotivos. Sou vendedor de sombras, e firme e forte em tudo que faço. Rua Chão de Terra, depois do pé de Marmelo, entre a estrada estreita e a floresta fechada. Tratar com Pédi Planta. Favor ser plantada a meu lado.
6 de novembro de 2009
Relatos afirmam: Pássaros têm arrogância como doença do século
Os mais firmes relatos sustentam a teoria de que os pássaros nem sempre foram como são nos dias atuais. Tempos atrás, quando o bicho homem não era tão bicho, os pássaros tinham mais alvedrio e viviam com mais encanto. Com o passar dos anos, quando os pássaros deixaram de ser finos elementos da natureza e transformaram-se em peças decorativas coagidas ao mais constrangido e reprimido canto, estenderam-se à condição de foragidos rebelados, com o qual não se tem direito a mera observação.Hoje eles vivem amordaçados com os laços do temor e do receio, voando, enloquecidamente, de fio a fio, fugindo até dos mais humildes olhares.
O medo se transformou em arrogância e ódio, fazendo dos antigos mensageiros de boas novas um dos seres mais prepotentes e abusadores do seu poder de sedução para com os seres mais desfavorecidos de simplicidade e beleza natural.
Resta saber se o tempo trará boas novas aos pássaros debelados ou nos seus bicos retornarão com boas novas ao tempo.
5 de novembro de 2009
No meio do nada: Vitória
O verdadeiro sabor de chocolate e cheiro de terra molhada. Além de uma sala de jantar com coleção de chapéus, uma casa de gnomo no quintal, um quintal com rio, uma varanda-atelier cercada por um jardim secreto, cores, todas as cores (todas possíveis e até as “pretas e brancas”). Achei o carneiro velho, o doente e o bode (aquele com chifres). Esse deve ser o lugar onde foram “esquecidos” os personagens desperdiçados (já falei do carneiro e do bode) e também os que nem foram citados, o Jumento-pônei cabeludo, a Libélula azul e seu fiel companheiro o Besouro de três pernas, o Mergulhão de asas, os Pássaros de papel (eles nunca piscam!) e todos aqueles peixes vermelhos que ofuscariam uma rosa. Além do além e além do horizonte existe um lugar chamado Vitória, o lugar bonito pra viver em paz.3 de novembro de 2009
Desejo
Saber o que eu quero, todos os números, um, nove, nove, zero, viver de verdade, correr, liberdade, um pouco de saudade, açúcar a vontade, sorvete de fruta, cupuaçú, bacuri, morango, uva, nenhuma fronteira, abraço, palhaço, sorrir de besteira, banhar na chuva, poder me molhar, sonhar acordada, fechar os olhos: voar, ficar parada, observar, bichos de rua, brincar.
2 de novembro de 2009
Barulho em prosa verde no banheiro
Tinha duas de mim quando escutamos uma fada. De onde posso olhar para mais duas e conversar sem ser notada. Me via a duas distâncias do espelho quando escutei: uma algazarra silenciosa, impulsiva e desajeitada.Não parecia proposital, um acidente, talvez. Procurei, esperançosa, sem notar que o acaso a fez. Estava ali, no chão molhado quando a vi. E notei que confusão entre parede e janela a pusera ali.
Não era fada, nem falava. Não se mexia, nem me olhava. Talvez não quisesse minha companhia, com isso eu não contava. Vi o medo e o receio. Quiçá esperasse ajuda que pouco antes não veio. Desconfiada! Não esperei, fui lá, me estendi e amparei. Minha, mitológica, esperança morreu junto à liberdade que à Esperança verde aconteceu.
Foto: Chico Ferreira
Ela conhece meu corpo como ninguém
Em cada segundo de mim, do que um dia morrerá, em cada espaço, em cada tempo, em cada força, ela desliza e se diverte. Passeia pela imensidão, dando voltas e retornando, com surpresa, como se nunca tivesse passado por ali. Me faz sentir vontade de matá-la e me dá coragem para aguentar e ver até onde vai e quando vai parar. Eu permito e me permito. Entorpecida com a ânsia de não saber o que aquilo significa, fico ali, quadriplégica. Num segundo me agarro à sensação única de saber e sentir o que quase ninguém tolera. Ela me conhece, e me sente como jamais alguém pôde um dia sentir. Obstante, na distração se vai, como se não tivesse significado nada. E tudo que, numa tarde, pareceu ser o maior estudo da minha carcaça terrena, se transforma em vazio. E mais uma vez eu sinto culpa e me questiono: por que me permito, se todas as vezes eu termino matando todas essas formigas?
1 de novembro de 2009
Burocracia das Cores
Com o passar dos anos o ser humano diminui a porcentagem de água e cálcio do seu corpo. Será pelo mesmo motivo que, na mesma proporção, perde as cores?Quando nascemos temos todas as cores: verde, vermelho, anil, amarelo, lilás; todas em tons humildes. Na mocidade as cores ficam vibrantes, chocantes e, agressivamente, lindas, algumas mais brilhantes que outras, mas todas sedutoras aos olhares despreparados.
No amadurecer as cores retornam ao clarear, mas de forma distante. Elas perdem a imaturidade. Ao invés de bucólicas, moribundas. Ao invés de ingênuas, refreadas. Os humanos crescem com isto e se deixam afeiçoar por mera desatenção ao belo. E por este motivo temos que chegar à sorveteria e dizer: “O de coco é gostoso, mas me dá o colorido!”. Que humilhação.
Sobre os cajus podres
Caju é umas das "frutas" que eu mais admiro, o sabor nem é tão perfeito, mas a beleza é inigualável, acho que só perde pros morangos. Mas numa coisa os cajus se destacam de tudo e de todos, eles são os únicos que, em decomposição, eu suporto o cheiro, e na verdade até gosto. Maior cheiro de infância. E pra quem vive de lembranças, cheiro de infância é "mó legal".Tinha sete anos - e ainda nem tinha um sítio, mas naquela época a gente tinha tudo sem nem precisar ser dono, bastava querer e, "pum", de repente era dono do mundo - quando me apaixonei por uma castanha verde, ainda no pé de caju de um dos "meus" sítios mundo a fora, acho que eu nunca tinha visto um verde tão verde.Que gosto teria?No mínimo ela tinha uma família perfeita, onde o pai ia gerar um caju banana, a mãe um caju maçã e os dois teriam um cajuí filho.Parecia saboroso. Eu só tinha sete anos! E na verdade nem era tão gostoso assim, uma mistura de limão com sabonete - é estranho.Mesmo com as manchas que ela me deixou por quase um mês, eu ainda achava aquele verde perfeito, e depois disso ainda passei semanas sentindo cheiro de caju podre, naquele sítio onde tudo virava cajuína.Naquela época nem era tão cheiroso assim, mas agora tem cheiro de infância, o cheiro mais perfeito de todos, e ainda me faz lembrar daquela castanha, que marcou a minha vida, mesmo que literalmente.
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